Educação infantil é fundamental para sucesso da vida escolar
Educação infantil é fundamental para sucesso da vida escolar Félix Zucco/Agencia RBS Alunos da escola Raio de Luz aprendem brincando na banda Foto: Félix Zucco / Agencia RBS Em todo o Brasil, só Rondônia tem, percentualmente, menos alunos de quatro a cinco anos na escola do que o Rio Grande do Sul, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Mas isso não é tudo. Até 2011, o Plano Nacional de Educação determinava o atendimento de 50% das crianças de zero a três anos pelas creches e de 80% das crianças de quatro e cinco anos pelas pré-escolas. Por aqui, segundo o Tribunal de Contas do Estado (TCE), os índices estão bem abaixo do esperado: são, respectivamente, 23% e 63,3%. Ao todo, 117 municípios gaúchos não oferecem matrículas em creche.
O resultado é uma lacuna no processo de desenvolvimento de muitas crianças. A Educação Infantil é considerada fundamental para o sucesso ao longo da vida escolar. Sem um bom começo, a tendência é que as dificuldades se acentuem no futuro.
O primeiro passo para superar o problema, segundo a professora Tania Beatriz Iwaszko Marques, da Faculdade de Educação da UFRGS, é eleger a Educação Infantil como prioridade.
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— Nem sempre os gestores públicos dão a devida atenção a essa área. Muita gente acha que criança pequena só precisa ser cuidada — avalia Tania.
A solução passa por maiores investimentos, ampliação dos espaços físicos, com abertura de novas vagas e contratação de professores com formação em pedagogia, capacitados para lidar com essa faixa etária.
A bandinha que dá o tom
Eles têm entre quatro e cinco anos, estudam em turno integral e até já fazem parte de uma banda, com direito a uniforme e a corpo coreográfico. São os alunos da Escola Municipal de Educação Infantil Raio de Luz, de Araricá, no Vale do Sinos.
O município de 6 mil habitantes é o primeiro colocado no ranking do Tribunal de Contas do Estado que avalia a oferta de vagas em creches e pré-escolas no Rio Grande do Sul. No último levantamento, em 2011, Araricá superou as metas e atingiu índice de atendimento de 92,6%, que segue em ascensão.
— Temos um olhar especial para a Educação Infantil, porque é o início de tudo. Sabemos que é difícil zerar a demanda, mas estamos prestes a inaugurar uma escola e esperamos chegar perto dos 100%, com todas as vagas em turno integral — destaca a secretária municipal de Educação, Cátia Helena da Silva.
Uma das razões do avanço é o nível de investimento da prefeitura na educação, que ultrapassa o percentual previsto por lei, de 25% do orçamento. Só no ano passado, segundo Cátia, o índice foi de 32%. A escola Raio de Luz, com seus 220 alunos de zero a cinco anos, é uma das beneficiadas por essa política. E tem um diferencial. Há três anos, a professora Solange Clarice da Rosa, especializada em musicalização infantil, decidiu apresentar um projeto inovador.
Solange criou uma banda marcial na pré-escola. A "bandinha", como carinhosamente apelidou, tem 20 integrantes. Todos têm seu próprio uniforme, que ela mesma desenhou. Os instrumentos incluem pandeiros, pratos, chocalhos e surdos. Não demorou muito para o grupo ganhar um corpo coreográfico, composto por uma baliza e quatro alunos do jardim. Cada ensaio é uma festa. Meninos e meninas aprendem brincando.
No Ensino Fundamental, Estado manteve a média de 2009
Nos anos finais do Ensino Fundamental, o Estado não atingiu as metas estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC). Na última edição do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em 2011, manteve a média de 2009.
Nos anos iniciais, o crescimento foi tímido. Desde que começou a ser medido, em 2005, o Ideb se transformou em um importante sinalizador da educação brasileira. É calculado com base no desempenho dos estudantes em português e matemática e nas taxas de aprovação, reprovação e abandono escolar. O resultado reflete uma situação de estagnação, que preocupa especialistas. Enquanto isso, Estados como Santa Catarina e Minas Gerais seguem avançando.
Para superar a apatia no Ensino Fundamental, o professor Fernando Becker, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destaca a necessidade de uma mudança de postura, a começar pelos educadores.
— Os professores querem que a criança fique parada, ouvindo lições, quando todo mundo sabe que isso é impossível nessa fase. Essa visão está ultrapassada — avalia Becker.
Outros pontos importantes, segundo ele, são: investir em formação docente continuada, aproximar as famílias da escola e modernizar as gestões.
Onde não há repetência
Imagine um colégio com repetência e evasão zero. Agora pense que essa mesma instituição superou, com 10 anos de antecedência, as metas estabelecidas pelo MEC para 2021. Esse estabelecimento fica em Vista Alegre do Prata, na Serra. A Escola Municipal Giuseppe Tonus é a campeã do Ideb no Estado, nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Em escala de zero a 10, os alunos tiraram nota 8,2 em 2011 — no Estado, a média foi 5,1.
— Os grandes países chegaram ao auge do desenvolvimento porque investiram em educação. É isso que fazemos — diz a secretária de Educação, Rosa Rigo Treviso.
A gestora e a diretora da escola, Valdete Gusberti Cortelini, elencam um conjunto de fatores que contribuíram para os resultados, a começar pelo investimento em educação, superior a 25% do orçamento. Citam a continuidade dos programas educacionais e a proximidade com a comunidade, que partilha de todas as decisões. Os pais se sentem donos do lugar. E não é só isso. Os professores têm quatro horas semanais remuneradas para planejar as aulas. Nenhum deles, segundo Rosa, ganha menos do que o piso nacional (R$ 1,5 mil) e todos passam por formação continuada, com cursos e palestras.