domingo, 17 de fevereiro de 2013

O Problema Não é Meu...

ENSINO E PRÁTICA-EDUCADORA ELIZABET SÁ


Elizabet Dias de Sá, de Minas Gerais, é psicóloga formada pela Universidade Federal de Minas Gerais e pós-graduada em Psicologia Educacional pela Universidade Católica de Minas Gerais. Ela também é docente e palestrante em cursos de formação e de especialização em educação especial e inclusiva, além de autora de artigos e livros na área da deficiência visual. E uma particularidade: “Nasci com baixa visão em decorrência de retinose pigmentar, uma degeneração da retina, e perdi progressivamente a visão. Em minha família, somos oito irmãos dos quais cinco são deficientes visuais pela mesma razão”, ela conta. 
A psicóloga e educadora é gerente de coordenação do Centro de Apoio Pedagógico de Belo Horizonte (CAP/BH). Seu principal objetivo é “garantir aos alunos com deficiência visual total e aos de baixa visão da rede regula de ensino o acesso aos recursos tecnológicos e o apoio pedagógico necessários ao seu desenvolvimento educacional”. 

Em entrevista para a Ciranda da Inclusão, Elizabet conta a razão de suas escolhas profissionais e como é realizado seu trabalho. 

Ciranda da Inclusão- Qual é a sua formação? Porque escolheu a profissão? 

Elizabet Sá – Tenho formação nas áreas de psicologia, filosofia e educação. Estas escolhas deram-se em um contexto de afinidades e idealismos, quando ainda não tinha experiência e maturidade suficientes para definir os rumos da minha vida profissional. Logo descobrir que a trajetória acadêmica era menos espinhosa do que a inserção profissional, pois tive que travar verdadeiras batalhas para realizar concursos públicos e ser admitida. Finalmente, ingressei na prefeitura de Belo Horizonte onde estou até hoje. 
Ciranda da Inclusão – Você é gerente de coordenação do CAP/BH. Conte um pouco do seu trabalho. 
Elizabet Sá – Trabalho na prefeitura de Belo Horizonte desde 1989, quando fui aprovada em concurso publico para o magistério, e estou na gerencia de coordenação do CAP/BH desde a sua criação em 2003. Este trabalho está relacionado com a produção do Braille, geração de livro acessível, confecção de material pedagógico, ampliação de textos, atividades de formação, dentre outras ações que visam a inclusão escolar de alunos com baixa visão e cegos. Além disso, colaboramos com outros órgãos da prefeitura que buscam orientação e assessoramento para o desenvolvimento de ações e projetos ou a produção de material acessível, tendo em vista o atendimento ás necessidades especiais ou usuários cegos ou com baixa visão no âmbito da administração municipal. 
Ciranda da Inclusão – Como é realizado o trabalho de formação de educadores? 
Elizabet Sá – No caso do CAP/BH, essa formação consiste em suporte aos professores que atuam em Salas de Atendimento Especializado (AEE) da rede municipal de ensino. Este trabalho é realizado como grupos de professores por meio de cursos, oficinas, palestras e outras atividades voltadas para a formação de competência, tendo em vista o atendimento educacional especializado de alunos cegos e com baixa visão. Colaboramos também para a formação acadêmica da graduação e pós-graduação que realizam estágios, visitas técnicas, entrevistas e outras atividades, junto ao CAP/BR, para o desenvolvimento de projetos em diferentes áreas do conhecimento. 
Ciranda da Inclusão – Há alguma história no seu trabalho que gostaria de contar? 
Elizabet Sá – Meu trabalho é bastante dinâmico e com varias historias porque a minha presença é independência costumam causar certo impacto ente os professores que não estão habituados a trabalhar com uma pessoa que não enxerga. Essa é uma experiência educativa que contribui para a ruptura de estereótipos e concepções errôneas acerca da perda total de visão. Pude constatar essa realidade também na África, onde estive duas vezes em missão de trabalho. Em Luanda, ministrei um curso para 60 professores de 18 províncias de Angola. Realizei também outra “aventura pedagógica”, quando sai de Belo Horizonte para Manaus, de onde viajei 13 horas de braço para ministrar um curso no município de Tefé. 
Ciranda da Inclusão – Há alguma metodologia que você recomenda para o ensino de crianças com baixa visão? 
Elizabet Sá – Mais importante do que definir uma metodologia de ensino é viabilizar os recursos pedagógicos e de acessibilidade, considerando-se a condição visual dessas crianças. Os alunos com baixa visão devem aprender a perceber visualmente as coisas, as pessoas e os estímulos do ambiente. Alunos que possuem o mesmo diagnostico, com campo e acuidade visual equivalentes, podem apresentar um desempneho visual bastante diferenciado durante a realização das tarefas escolares. Isso porque o uso eficiente da visão é uma habilidade que deve ser aprendida e desenvolvida. Este trabalho baseia-se na utilização do potencial de visão e dos sentidos remanescentes, bem como na superação de dificuldades e conflitos emocionais. Os professores devem conhecer a complexidade da baixa visão possibilitar o comportamento exploratório por meio de atividades orientadas e organizadas a partir de critérios que contemplem as necessidades individuais e especificas desses alunos. Para isso, torna-se necessário conhecer cada aluno, identificar suas potencialidades e necessidades, as peculiaridades do contexto escolar e familiar.